terça-feira, 27 de março de 2012

A CRIANÇA MAIS FELIZ DO PEDAÇO

Seu "toddler" (criança de 1 a 3 anos) não é uma versão em miniatura de uma criança mais velha. A forma como ele pensa é muito mais rígida e primitiva. O segredo é falar a língua dele. Nós ficamos tensos quando estamos chateados, mas crianças pequenas ficam pré-históricas.
Freqüentemente cometemos o erro de falar com "toddlers" como se eles fossem adultos pequenos. O que você precisa é usar estratégias especificamente desenvolvidas para lidar com criancinhas impulsivas, distraídas, egocêntricas, com pouca capacidade de se expressar verbalmente, e primitivas.


As 5 principais capacidades que nos fazem humanos aparecem durante a idade de 18 meses a 4 anos:
- caminhar com firmeza e equilíbrio sobre duas pernas;
- manipular delicadamente objetos com as mãos;
- expressar palavras faladas;
- combinar idéias na cabeça;
- formar relações sociais complexas.


Os 4 Estágios Evolucionários da Criança Pequena
Podemos traçar um paralelo entre a evolução de uma criança de dezoito meses até quatro anos e os cinco milhões de anos de evolução dos humanos. 
As quatro fases são distintas, mas se sobrepõem:
- "O Chimpanzé Charmoso"(12 a 18 meses) - consegue se mover só com os pés e usa as mãos livres para segurar tudo o que alcança. Chimpanzés selvagens conseguem comunicar 20-30 palavras usando sinais e gestos. Parece familiar ?
- "O Neanderthal" (18 a 24 meses) - Consegue usar uma colher, beber num copo sem espirrar e jogar uma bola. É ambidestro e bagunceiro, mas seu equilíbrio é bem melhor que o dos chimpanzés, assim como sua habilidade em torcer, futucar e separar objetos em pequenos pedaços. Mas o progresso tem preço. Com as novas habilidades, aparece também um problema de atitude. Os Neanderthais não viviam com medo dos animais ferozes, porque podiam se defender com pedras e paus (usados como armas). Isso os fez muito confiantes, egocêntricos e brigões. Não é à toa que o termo "terrible twos" aplica-se a esta idade. O período entre 18 meses e o segundo aniversário é provavelmente quando a criança é mais inflexível, cheia de razão e pouco disposta a ceder."
- "A Criança das Cavernas" (24-36 meses) - Os homens das cavernas tentavam fazer amizades e criar alianças, entraram no mundo de linguagem um pouco mais complexa, com instrumentos mais evoluídos e aprenderam a arte de fazer trocas. Um sinal de que a criança já consegue planejar é quando ela é capaz de fazer desenhos circulares no papel. A capacidade de prestar mais atenção e o interesse em fazer amigos aumenta a habilidade do seu filho em esperar a vez dele e ser paciente. Mas, quando frustrado pelas novas experiências, sua criaturinha pouco civilizada ainda vai usar de respostas primitivas, como bater ou moder.
- "O Morador de Cidades" (36 a 48 meses) - Por volta do terceiro aniversário, seu filho chega perto do nível de evolução dos moradores das primeiras cidades (60 mil anos atrás). Eles inventaram regras de educação, aprenderam regras sociais e adquiriram uma linguagem sofisticada, que possibilitava formar comparações, cantar músicas longas, dançar e contar estórias. Nesta idade a criança já consegue fazer comparações como "o avestruz é como um pássaro-girafa" ou "eu não sou um bebê, sou grande". Como um morador de uma vila primitiva, a criança nesta idade abraça a magia livremente, como uma forma de explicar o inexplicável. E, como os antigos habitantes das primeiras vilas, ela também carece de habilidade neurológica para colocar suas palavras em forma escrita.
Com a excitante descoberta de que ela é maior que um bebê, chega a enervante realidade de que, comparada com todo o resto do mundo, ela é pequena e vulnerável. Não é surpresa que crianças de 3 anos sejam fascinadas por estórias e jogos onde ela é grande e forte, principalmente se ela for o grande monstro !
Uma vez que você vê seu filho sob a luz da escala evolucionária, suas frustrações e combates diários passam a fazer mais sentido. As birras, os gritos, o visível desprezo por seus pedidos e o desejo de arremessar pedras nos seus gatos - a falta de civilidade do seu filho - fazem todo o sentido.
Lembre-se de que você conhece o seu filho melhor do que qualquer autor de livro. Essas categorias de idade são apenas uma idéia. Cada criança tem seu tempo e atinge suas fases em épocas diferentes.


Pais Pré-Históricos: como ser um embaixador
Você Tarzan: Eu, Mamãe !
O primeiro passo é pensar em você como um embaixador do século 21 ajudando uma criatura Neanderthal. Seu convidado não entende seus costumes nem fala sua língua, mas veio para ficar até o ano que vem.
O objetivo de um embaixador é promover a harmonia e evitar conflito. Ele se vale de respeito, bondade e negociação. Não é dominador nem tem medo de ter controle da situação. E às vezes precisa ser firme. Claro que seu trabalho como embaixador fica muito mais fácil depois que seu convidado aprende a sua língua.


A Regra do Drive-Thru
Muitos pais ficam surpresos ao saber que a coisa MENOS importante a respeito do que eles dizem para uma criança irritada é... O QUE eles dizem ! Nossas palavras são praticamente sem sentido sem o correto tom e expressão de voz. 
Com crianças pequenas, repetição e brevidade são importantes. 
Converse com seu filho pequeno na hora do choro como se fosse uma atendente de "drive-thru". Quando você pede um hamburger e uma coca no microfone do "drive-thru", o que o funcionário responde do outro lado ? "Está com preguiça de cozinhar? Não sabe que isso engorda? Custa 5 dólares." Não, ele REPETE o que você disse.
Repita o que seu filho está sentindo, usando expressões faciais, gestos, tom de voz e o seu coração. Não diga "fique quieto", "pare com isso agora", interrompendo o que a criança tem a dizer.
Na maioria das vezes, uma criança pequena chorosa está tão chateada que precisa que os pais mostrem que compreendem o que eles sentem ANTES de dizerem qualquer coisa. Se seu filho estiver sendo agressivo ou encontra-se em perigo, pule esta regra e vá para a ação. Neste caso, a SUA mensagem é prioridade.


Legitimar o sentimento da criança pequena
É importante legitimar o que a criança está sentindo ANTES de dizer a sua opinião a respeito. Muitas vezes os pais cometem os seguintes erros, interrompendo a criança que chora:
- Racionalizar: "Viu? Não tem monstro nenhum debaixo da cama".
- Minimizar o sentimento: "Ah, que nada, nem foi tão forte assim. Nem doeu!"
- Distrair: "Vamos lá ver aquele livro!"
- Ignorar: Simplesmente virar as costas e deixar a criança chorando.
- Perguntar: "Mas ele bateu em você? Quem começou?"
- Ameaçar: "Se não se comportar, vai ficar de castigo."
- Reafirmar: "Não chore, tudo bem. Mamãe está aqui".
Tais respostas têm a sua hora e lugar, mas só quando for a SUA vez de falar ! É preciso PRIMEIRO legitimar o sentimento da criança angustiada.


Por que suas táticas falham?
Porque você tem uma falha na comunicação com o seu filho. Mesmo lógica, distração e carinhos freqüentemente são ineficazes para acalmar um pequeno primitivo IRADO, na hora da birra. Por quê?
- Seu filho não consegue realmente "escutar" você: todos nós temos dificuldade em enxergar (e ouvir) as coisas como elas são quando estamos nervosos. Isso é especialmente válido para crianças pequenas, com seus cérebros pré-históricos que não aprimoraram a linguagem ainda.
- Seu filho não sabe usar a lógica: Racionalizar requer uso do lado esquerdo do cérebro, ainda muito desorganizado em crianças menores de 4 anos.
- Seu filho está focado no que ELE quer, não no que você quer: Você consegue imaginar uma criança pequena dizendo "você está tão certa, Mamãe. Como eu nunca tinha pensado nisso antes?" Não espere que seu amiguinho pré-histórico raciocine e ceda quando está atacado (já é difícil quando ele está calmo e feliz!).
- Seu filho pensa que você não o entendeu: Como pode seu filho gritar com você 25 vezes e ainda assim achar que você não o entendeu? Porque você não o respondeu na língua dele!
Uma criança de 3 anos que está calma entende frases mais longas e precisa de menos repetições que alguém de 1 ano e meio. Contudo, quanto mais nervosa estiver a criança, mais primitiva ela fica. Na hora da birra, use a linguagem mais primitiva, qualquer que seja a idade da criança. Quando ela se acalmar, retorne para a linguagem usual que ela entende.
Para uma criança na hora da raiva, um gesto literalmente vale mil palavras. Não sorria se você está falando algo sério. Mostre interesse e respeito. Balance a cabeça, abaixe seu rosto com humildade e sente-se ou ajoelhe-se, para ficar no mesmo nível que a criança. Toque levemente o braço dela, mostre empatia com o seu rosto. Assim você diz, sem palavras "eu sei como você se sente". 
Você não está tirando onda com a cara da criança nem reforçando o comportamento negativo, quando "fala" a linguagem dela. O fato de você discordar do ponto de vista dela não significa que você não deve demonstrar que entende o que ela quer. Ninguém recomenda que você aja assim o dia inteiro, mas quando a criança está dando aquele ataque, ajuda bastante usar a linguagem dela.


Depois da Birra
Quando a criança começa a se acalmar, você pode ajudá-la:
- Fisicamente: se ele não quiser um abraço, sente-se do lado dele;
- Oferecendo escolhas: "quer um suco ou um carinho mágico da Mamãe?";
- Ensinando outras formas de demonstrar emoção: diga "mostre uma cara de bravo para a Mamãe ver como você estava bravo" ou "vamos desenhar como você estava bravo" ou "vamos dar uns murros neste travesseiro?";
- Ensinando palavras para expressar emoções: diga "nossa, como você estava bravo!" ou "você parecia estar com medo";
- Dando a ele o que ele quer no mundo de fantasia: diga que você desejaria dar a ele tudo o que ele quisesse e mais;
- Usando o poder do cochicho: cochichar é um jeito legal de mudar de assunto e ficar de bem novamente;
- Elogiando quando ele fizer algo positivo: comente qualquer pequeno sinal de cooperação;
- Compartilhe seus sentimentos usando frases com VOCÊ-EU : "Mamãe diz 'não, não!' Quando VOCÊ bate, EU fico brava, brava, BRAVA". Isso o ajuda ver as coisas sob o seu ponto de vista.




(Trechos resumidos do livro "A criança mais feliz do pedaço", do Dr. Harvey Karp)

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